terça-feira, 13 de outubro de 2009

Os estímulos da "nova era"

Você já ouviu falar em miss sem teto ou miss cirurgia plástica? Pois nesta última semana esses dois títulos foram dados a duas européias: a uma belga e a uma húngara.

Ainda posso lembrar da expectativa que tinha quando ocorria o miss universo. Como toda menina vaidosa (ou quase, no meu caso), desfrutava ver as belezas exóticas do mundo afora e claro, torcer para a nossa miss Brasil (que sempre perdia para uma venezuelana). Era tão emocionante quanto as olimpíadas ou a copa do mundo.

Mas nos anos 2000 já não se premia com tanto vigor uma beleza naturalmente concebida. E quanto ao futebol, bem, tenho a impressão que se jogava mais pela camisa e não pelos euros...Bem, o lance é que a Hungria quer estimular as cirurgias plásticas através do concurso de miss - o país tem resistência à intervenção cirúrgica. Já a Bélgica pretente promover uma conscientização sobre os moradores de rua.

Sinceramente, os dois prêmios para mim são pra lá de esdrúxulos. Eu é que não queria escancarar a meio mundo que o que sou é artificial ou que passo a minha vida vagando pelas ruas. Por mais que as vencedoras tenham suas compensações financeiras, não são valores para comemorar.

Se com os concursos de miss nos tornamos mulheres infelizes com o peso ou altura ou cor de cabelo ou sei lá mais o quê, imaginem o que não pode suceder se essas duas novas categorias fazem sucesso?
Gente, me nego a fazer pástica e a morar na rua!

sábado, 10 de outubro de 2009

Peru, nãooooo!


Não conheço muita gente dessa nacionalidade não e nem o país. Os poucos peruanos que conheço são gente boa, meio espertalhões, folhados às vezes, mas são alegres, simples e tem ceviche apimentado que é uma tentação.

Hoje, mais precisamente há 30 minutos atrás, me converti em uma peruana convicta; sofri dores de parto ao ver a partida do Peru com a Argentina. Vocês devem estar pensando que sou uma puta de uma cretina, vivendo em Buenos Aires, quase casada com um argentino e torcendo para o Peru. Sim, sou uma putaça de uma cretina e foda-se a moral, ética e todo esse blablabla quando se trata do futebol argentino. Digo de boca cheia que queria muito que a Argentina perdesse. Mas não foi dessa vez. Um dia será.

E o meu namorado? Pobrezinho, como todos os argentinos ficou abaladíssimo com a "semi vitória" do Peru. Enquanto eu pulava e improvisava uns passinhos de axé gritando "é Peruuuuu na cabeça", ele olhava pálido para a televisão e balbuceava um tímido "shhhhh, deixa eu ouvir", quando o desgraçado do Palermo enfiou a merda da bola no gol, no último minuto.

Até agora estou passada, curtindo uma derrota e uma baita vergonha. O Peru perdeu e agora tenho que ficar aguentando um argentino faceiro do meu lado, que me olha apontando o dedo enquanto ri de mim sem o menor pudor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O primeiro sapatinho de Cinderela


Até que aquele dia não estava tão frio, segundo o que soube. Os deuses tem sido generosos com Guarapuava; diversas vezes morri de hipotermia naquele lugar, mas este dia não. Fazia calorzinho, até inspirou minha irmã a comprar um all star para a minha sobrinha Juju.

Para a nova aquisição, juntou-se três gerações: neta, mãe e vó. A mãe pensava no preço, a vó no conforto e o pequeno bebê, só Deus sabe. Sei que a pequena princesa foi certeira, entrou na loja e escolheu o modelo mais espalhafatoso: rosa e com lantejoulas. As mais velhas não concordaram com o modelo, mas quem disse que a pequena desistia? Agarrou-se ao objeto, fez birra, gracinha, ameaçou de se atirar no chão, até derreter o coração daquelas duas conservadoras.

Conseguiu: foi pra casa toda contente. Dizem que sequer tira o sapatinho para dormir e que até na banheira com ele ela quer entrar. Essa Juju...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"Causa honoris"


 Se temos strippers, animadores de festa e lavadores de defunto, porque não categorizar os seguradores de vela? Essa gente solitária, facilmente identificada em uma balada ou num barzinho romântico, realmente merece o nosso reconhecimento! Ou você pensa que é fácil escutar os estalidos do casalzinho meloso, enquanto num sorriso forçado você tem que dizer para a amiga “está tudo bem”?

Imaginem o sofrimento do/a vela quando sai com a galera (todos casais, lógico) e num ato de piedade (um tanto estúpida) lhe é apresentado um “amigo/a” para que não passe a noitada sozinho/a. Agora, o foda mesmo é quando o cara (ou a mina) é feio/a e tímido/a e durante toda a porra da noite só consegue balançar a cabeça e gemer um “que música boa, né?”. Enquanto ocorre essa cena grotesca, os amigos do/a vela se pegam euforicamente, graças ao maldito e belo refrão daquela musiquinha dos infernos do Jorge Vercilo, e o/a vela assistindo tudinho, apenas assistindo.


É por esses e outros nobres motivos que devemos demonstrar compaixão para com os/as velas, gente querida por todos nós que, ainda no fim da noite, são obrigados/as a escutar a maravilha de noite que tivemos ao lado de nossos respectivos amores.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A loirinha

Era tão leve que um dia de vento mais abrupto a levaria para longe, como essas folhas secas que dançam no ar num dia qualquer do outono. A menina de cabelos castanhos escuro e de olhos amendoados sempre me fazia desfrutar de qualquer trivialidade típica da sua idade: o novo tênis, a nova boneca, o bolo que comeu no fim de semana. Foi numa dessas que a pequena me mandou essa “sou mais loira que você”.

Pensei que fosse um comentário desses de criança, por isso, não investi muito na conversa. Mas como ela insistia no assunto, resolvi prestar-lhe mais atenção.



- Tia, meus olhos são azuis e meus cabelos loiros são como os das minhas bonecas.
- É mesmo? Perguntei.
- É, respondeu com toda a sua ingenuidade.
- Procurando não desapontá-la, olhei no fundo de seus olhos e disse:
- Querida, você é uma linda garotinha morena. Onde você está vendo os olhos azuis e os cabelos loiros?
- Indignada e quase aos prantos me disse que todo mundo dizia que ela era uma princesa e como correspondia a todas as princesas, ela devia ter os cabelos loiros e olhos azuis. Portanto, ela ela loira e de olhos azuis!
O que fazer numa hora dessas?

sábado, 12 de setembro de 2009

Amor de 8 minutos

Sem pensar muito no conceito "amor", posso dizer que já tive amores de minutos, horas, dias, meses e anos! Não cabe a mim falar de todos. Aqui tratarei apenas de um que durou 8 minutos. Possivelmente, alguém se identificará com o que relatarei agora.

Era uma manhã pedante e fria. Estava sentada no inóspido banco do metrô, quando ele venceu a enorme barreira humana parando logo ali, na minha frente. Meu sono matinal não permitiu identificá-lo entre a multidão, até que escutei sua voz que respondia ao celular.

Fiquei tão encantada que passei a observá-lo com mais curiosidade. Claramente ele percebeu o meu olhar e não sei que diabos deu em mim que lhe dei um sorriso. O rapaz ficou corado imediatamente. Mas estava tão delicioso flertar com aquele desconhecido que já não me importavam os pudores.

Sabíamos que a cada estação alcançada o nosso tempo diminuía, então, desfrutávamos daquilo que nos restava. Já éramos cúmplices. Meu coração batia forte, a respiração estava ofegante e sabia que com ele não era diferente. Finalmente, alguém desocupou um banco e ele sentou exatamente de frente para mim. Confesso que senti vergonha, mas a aventura de me apaixonar por um desconhecido e demonstrar o que sentia era tão irresistível que...deixei me levar pela situação.

Nossos olhos questionavam, "você tem alguém", "onde mora", "a gente daria certo", "será que beija bem", "seríamos felizes", "com quem nossos filhos se pareceriam"...uma infinidade de perguntas inúteis, pois nenhum dos dois se atreveria jamais a perguntar ao menos o nome. Faltavam 3 estações para a última. Nos sentíamos tristes: estávamos apaixonados e era fato que o nosso amor estava prestes a terminar.

Sabia que nunca mais veria aqueles olhos azuis, rosto tímido e mãos delicadas que destoavam com o corpo atlético de mais de 1,80m. Sutilmente, vi que ele tentava descobrir o meu decote, coberto pelo cachecol. Como quem sentia calor, me abanei com o pedaço de pano, fazendo aparecer uma singela curva do vulto desejado. Um sorriso me foi devolvido e num silencioso adeus nos despedimos.

Chegamos. Ajustando os papéis que tinha nas mãos pude ver que era advogado (ok, ninguém é perfeito). Como bom cavalheiro, esperou eu deixar a porta para depois sair. Olhei para trás na esperança de conseguir outro sorriso, um um aceno, mas entre aquele mosaico de gente éramos novamente dois estranhos e o nosso amor se desvaneceu para sempre naquele momento.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Chutando as bolas do mundo

Ou os testículos, para quem ainda não entendeu a mensagem.
Sabe quando você acorda atrasado para o trabalho, sai correndo sem o café-da-manhã, percebe que chove lá fora, mas que você esqueceu a merda do guarda-chuva, e na hora de tomar o metrô tem que enfrentar uma fila enorme e um infeliz tenta pagar a passagem com uma nota alta e a mal humorada da atendente não tem troco, e você afobado olha o relógio sentindo um brote de suor e angústia percorrer o seu corpo, desejando estar no lugar da Aline Morais que vai estrear a novela das 8 linda e glamurosa, percorrendo Paris, Petra, Búzios, beijando o Thiago Lacerda e ganhando horrores por isso? Enquanto você divaga a sua falta de sorte, a atendente do metrô divaga no troco e você certeiramente conclui “que vida de bosta tenho”!
Hoje não acordei me sentindo segundo as descrições acima.. Há dias venho acordando com a convicção de que Deus, nas palavras de Chico Buarque e cantado na saudosa voz da Cássia Eller é...

“... um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado
Me botar cabreiro
Na barriga da miséria
Eu nasci brasileiro...”

Com o pequeno detalhe de que nasci “brasileiro-pobre”...

Se ao menos você fosse um crente nas mensagens de auto-ajuda sua vida poderia ser mais fácil. Agora se como eu for racional demais para acreditar na filosofia do bom pensamento, atraindo assim bons fluidos, caro mío, bem vindo ao mundo dos fodidos e pior: conscientes de sua condição e situação de que as coisas pouco provavelmente vão melhorar.

Agora, neste momento estou processando os 100 míseros reais que meu chefe está negando a pagar-me, porque ele acha que o que ganho está acima do piso! O salário que cobro – porque ninguém me dá nada (aliás, detesto a denominação ganhar, muito utilizada por nós brasileiros) é uma piada de muito mau gosto. Moro na Argentina e como qualquer argentino meia-boca como eu, sabe que viver aqui é uma odisséia diária e um atentado a qualquer autoestima. Isso somando às pessoas idiotas com quem tenho que lidar todos os dias e mais a frustração de trabalhar com publicidade, criam verdadeiras turbulências na vida de uma singela brasileira que saiu do país em busca de aventura. E que aventura!

A vontade que tenho agora é de dar um chute tão cruel nos colhões do mundo que precisava compartilhar essa frustração, pois de uma coisa tenho a tardia certeza: a vida é injusta, o sol não nasce para todos e só não sabe quem não quer!

E continuando com a pertinente música do Chico...

...Diz que deu
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, oh nega
E se Deus não dar
Como é que vai ficar, oh, nega?
"à Deus dará" , "à Deus dará"
...

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