quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O anúncio

As letras garrafais chamaram a atenção da estagiária. Com seus miúdos olhos arregalados lia aquele anúncio tão inusitado, que deveria ser publicado na sessão dos classificados naquela manhã. Deu de ombros, analisou novamente o pequeno texto e concluiu que deveria mostrá-lo ao chefe.

A redação do jornal era caótica. Telefones não paravam de tocar, gente a todo o vapor com suas agendas e celulares. O chefe estava fechado na sua saleta, com um humor terrível. Os dedinhos úmidos se retorciam entre si, tamanho era o seu nervosismo. Esse anúncio poderia custar-lhe o emprego, pensou. Sua tarefa naquele segundo dia de trabalho era checar os classificados e enviar tudo o mais rápido possível para a impressão. Nada desafiador, simples demais. E agora não sabia o que fazer. Olhou mais uma vez para o chefe, para o anúncio e para o relógio. Saco, em dez minutos....

Seu desespero foi cortado por Ritinha, a colega quarentona do lado. “Tá refletindo o quê? Anda logo com isso, que o pessoal lá em baixo não está facilitando”. Simplesmente baixou os olhos e apontou com o queixo o que tinha nas mãos. A outra mal viu o anúncio e riu. “Isso só pode ser uma piada, você é a novata aqui”. A cara de mal convencida da colega encorajou Ritinha, que leu até a última linha e decretou “não publicaremos”. Tinha suas razões para isso, o chefe não estava num bom dia e o prazo para tomar alguma decisão era curto. “Melhor não publicar, isso vai dar merda” aconselhou.

“A merda está na minha mão Ritinha, e quem está fedendo sou eu. Pagaram por este anúncio e quem o recebeu enviou para mim por algum motivo. O jornal não pode se responsabilizar pelos classificados. Imagine se tivéssemos que analisar cada publicidade de motel, por exemplo, verificando se a cama é realmente redonda e não oval ou se o espelho do teto é seguro e não despencará sobre quem estiver abaixo. Isso é ridículo!” A colega concordou, afinal com ou sem merda tratava-se de uma estagiária e eles sempre faziam besteiras. Certamente o que ocorresse logo seria esquecido, como sempre. Um simples anúncio pago... bizarro, mas não se tratava de algo que colocasse o jornal em risco. Tinha razão, deveria ser publicado.

E publicou.

Horas mais tarde, a moça de olhos miúdos recolhia seus poucos objetos sobre a mesa. Não se animava a encarar ninguém, grande demais era a sua humilhação. Deu uma última mirada para sua mesa e saiu arrasada, carregando sua pesada carcaça.

Ritinha que a observava de canto de olho apanhou o telefone e discou rapidamente um número. Do outro lado, uma voz ansiosa escutava as poucas palavras da interlocutora. Sorriso nos lábios, Ritinha teve um chilique de alegria. Agarrou os muitos objetos que tinha sobre sua mesa e os tranferiu para a que estava ao lado. “Finalmente conseguiu o que queria, né sua safadinha”, disse Marta, anos de experiência limpando aquele lugar”. Com os dentes ainda à mostra, confidenciou “é a terceira deste mês meu bem. Nenhuma recém formada me tira daqui. E veja que beleza, agora tenho uma mesa maior e este computador está novinho em folha”, ajeitava-se no seu novo lugar, com o seu mesmo e antigo posto.

Moral da história: O ser humano tão convicto de sua superioridade, ignora sua frágil condição inferior de quem se deixa mover pela mesquinharia de seus baixos instintos.


quinta-feira, 23 de julho de 2009

A criatividade masculina me espanta


Não bastasse uma semana trancada dentro de casa, entre lencinhos de papel e antibióticos e um aborrecimento sem fim, típico dos dias frios e chuvosos, viro para o meu namorado e proponho:

- Vamos ao cinema? Está em cartaz no cine arte um filme interessante...
-Nem sonhando! Bem que sei desses filmes sensíveis que você gosta de ver. Tenho sono só de imaginar!
- Ok, para que não diga que não sou diplomática, vamos tomar uma breja.
- Você sabe que não tomo cerveja desde as férias em Cancum. E mais, pelos antibióticos você não pode ingerir álcool.
- Mas você é chato, hein! Puxa, já não aguento mais ficar trancada dentro de casa. E esse frio...
- Já sei, se quiser sair tenho uma ideia. O que acha de irmos a algum lugar tomar uma vitamina...uma vitamina de banana?

Perplexa, olho para a cara do homem com quem comparto quatro anos da minha vida e penso "ele está gozando da minha cara". Vejo o mocinho indo ao quarto. Todo alegre, vem com a carteira na mão e diz:

- Vai te fazer um bem danano! É muito nutritivo.

Meu Deussss, ele falava sério!!!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Conversa de pai e filho

Treinou dias para esta conversa:

-Pai, tenho algo pra te contar.
- Algum problema meu filho?
- Não exatamante...
- S
omos amigos, filho, confie em mim. Ou quer me deixar nervoso?
- N
ão é esta a intensão pai, fique calmo, é coisa boba.
- Fiquei, agora conte.
- Vou deixar a faculdade...
- Como? Você enlouqueceu? Deixar o penúltimo ano de engenharia assim, do nada? Existe algo que eu n
ão sei? Meu Deus do céu filho...
- Nada disso pai. Só acho que me dou melhor com as letras. Quero me dedicar à literatura.

O pai respira fundo.

-Literatura... Tá gozando da minha cara? Literatura? Isso é coisa de viado e filho meu vai fazer é ponte e n
ão livrinho pra madame ler! Mas era só o que me faltava...e o que é que você vai escrever? Desde quando sabe escrever?
- N
ão sei pai, posso escrever muitas coisas, poesia...
- Poesia? Filho, você é bicha? Bem que comentei com a sua m
ãe. Nunca entendemos o seu rompimento com a Carlinha...um mulherão. Aposto que foi por causa da poesia.
-
Mais respeito comigo pai. Na verdade ela nunca apoiou os meus projetos. Aspiramos diferentes coisas na vida.
- Mais respeito comigo digo eu, oras! Onde já se viu, largar aquela gostosinha e a faculdade pra escrever rimas...
- N
ão são rimas pai, são poesias. E nem sei se terei jeito para a poes...
- Tá me chamando de ignorante? Pois ent
ão, não vai rolar rima, poesia, merda alguma. Você vai voltar é pra faculdade e pra Carlinha. E se eu ouvir essa história de literatura nesta casa novamente eu juro que te encho de porrada.
- Mas e se eu continuar estudando e dedicar-me à literatura ao mesmo tempo, pode?
- Hum...poder n
ão pode. Já sei, com uma condição. Volte pra Carlinha, coma ela e a melhor amiga dela. Grave tudo com a sua webcam e aí eu te digo se pode.
- Mas pai, isso é monstruoso, desprezível!
- Desprezível é ter um filho viado. Ou é isso ou nada. Passe esse telefone que eu mesmo ligo pra Carlinha...Alô, Carlinha. Tudo bem querida, a Dora e eu também sentimos a sua falta. Só um minutinho que o Beto tem uma coisa importantíssima pra te dizer...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A morte do príncipe encantado

Toda sua vida foi idealista, principalmente quando o assunto era homem. Reconhecia que príncipe encantado era coisa ultrapassada, mas quem disse que isso a afetava. Suas amigas a indagavam se aquilo era tipo ou se realmente pensava assim. Por mais que confirmasse sua convicção, não era o suficiente.
Os comentários maldosos pouco importavam, o que ela gostava mesmo de fazer era encostar a cabeça no travesseiro e imaginá-lo: loiro? careca? moreno? magro? alto? gordo? baixo...

E de tanto insistir nesse negócio de amor à antiga, não é que ela encontrou o tal príncipe!
Um sujeito boa praça, prestes a formar-se em Direito, falava três idiomas e era rico! Não pensou duas vezes e se atirou de braços abertos à exploração de seu novo reino.

Todos os dias se encontravam. E quando isso não era possível, a vida lhe era impossível e insuportável para quem convivia ao seu lado. Era desses amores que causava náuseas, principalmente nas amigas que não tiveram a mesma sorte que a sua.

Passam meses, alguns anos e veio o casamento.
Era realmente uma princesa ao lado de seu príncipe. Mas como toda a história de princesa sempre aparece uma bruxa ou um feitiço...

Tudo começou com o mal hálito matutino, que pôde suportar criando a tática de deixar algumas balas na cabeceira da cama. Porém, logo vieram os roncos, as caspas, as cuecas despejadas no tanque (e porque não no meio da casa?), as meias e toalhas de banho atiradas no quarto. Já não suportava mais o descenso de princesa à de dona-de-casa. Exalava desinfetante com sabão em pó e sua tez já era opaca e encardida feito as cuecas do marido.

Como toda e boa mulher, acreditou que era uma fase e que conversando as coisas poderiam mudar. Até certo ponto tinha razão; o príncipe saiu do pedestal à pia de louças. Mas não por muito tempo. Nem os livros de auto-ajuda que soletrava de cor funcionavam, e os conselhos do psicólogo de canalizar o estresse ao diálogo, tampouco. Que se dane a psicologia! pensou.

Um dia desses, ela recebeu em mãos o atestado de óbito do príncipe: descobriu o motivo pelo qual os dois já não transavam. Valquíria era o seu nome. Sim, nome de biscate. E a puta tinha nome e endereço, mais precisamente um endereço virtual. Aquilo a feriu tão profundamente que decidiu acabar com aquela história de amor para a vida inteira. Não pensou, porque mulher irada não pensa. Aguardou a chegada do homem em seu cavalo branco, partindo a sua cabeça com o multilimpador que comprou numa promoção na TV. Com ar curioso, olhou o sangue brotar do crânio afundado com certo prazer, admitindo que, atirado no chão, a carcaça lembrava muito a de um sapo boi.

Não foi presa. Foi absolvida com uma fiança generosa, paga, claro, com o dinheiro do marido defunto. E não é que ela foi ao seu enterro? Bastante abatida, velou o morto e seus sonhos de conto de fadas, e para concluir o ato fúnebre, num último suspiro de nobreza, atirou contra o caixão o seu cetro de ouro, enterrando definitivamente a última dinastia real.



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