terça-feira, 5 de abril de 2011

Você se sente feia hoje?

Que vivemos num mundo cheio de rótulos, isso não é novidade. E que somos castigados por padrões que determinam como devemos ser, vestir, amar, etc, também não é nenhuma novidade. Tampouco é nova, a ideia de que a frustração do homem na era pós moderna é promovida por essa "filosofia" superficial que nos bombardeia diariamente pelos meios de comunicação, nas conversas com os nossos amigos, nos livros, revistas, cartazes, músicas e nos pacotes de cereais. Também acho uma loucura tudo isso, mas este é o mundo em que vivemos...

Nunca fui fiel à moda, até porque acho isso uma ridiculez. Não acho abominável ser mal vestido. Parece estúpido que uma pessoa viva a sua vida em função de ser uma embalagem bonitinha para agradar aos outros, sequer para si mesmo. No meu caso, onde trabalho, procuro esculachar a moda, mesmo estando em um universo de executivos da área da tecnologia e da comunicação, que no geral adora difundir a onda cool.

Hoje, no escritório, senti uma certa ponta de ofensa quando minha chefe quis insinuar que sou pouco  produzida. Tá bem, concordo, mas sinceramente, não tenho saco pra moda e prefiro investir o meu dinheiro em viagens, livros, porque isso sim é cool, na minha opinião. Confesso que a insinuação me deixou fora do ar por algumas horas. Até considerei a possibilidade de comprar uma dessas revistinhas patéticas ou até mesmo baixar um Sexy on the City e ver o que as garotas norteamericanas ensinam para estar bem vestida. Mas por sorte, este momento de insanidade durou o suficiente para eu me dar conta de como somos influenciáveis pelo o que os outros pensam e que é preciso ter pulso firme e fortes propósitos para não cair na armadilha de fazer o que todo mundo faz. 

Olhei para a minha chefe: bonita, nem tão bem vestida assim. Miúda por uma magreza exagerada, de semblante triste e descuidado. Corcunda, provavelmente pelo peso da tristeza que leva dentro de si. A mulher é um poço de competência, mas antes dos trinta já leva consigo um divórcio, é solitária, não tem amigos, solteira da silva. Eu, nem tão bonita assim e com a postura de ex bailarina clássica que sofre de dor coluna, pelo fato de ter dado duro na adolescência como voluntária de uma ONG dedicada à ajudar tribos indígenas, miseráveis e sem-teto, posso me considerar feliz. Acho que por me sentir de certa forma realizada e por poucas vezes ser afetada com a opinião alheia. Tenho poucos grandes amigos, mas esses são como verdadeiros irmãos. E não estou sozinha não. tenho um namorado que, embora me estressa bastante, sei que me ama e é um puta de um companheiro.
E fazendo essa autoanálise, pensei que ao invés de investir em cremes, acho bacana gastar o meu dinheiro em cursos na ONU para aprender sobre os conflitos africanos, árabes, humanos. Entender sobre as guerras, ajudar em boletins como voluntária na Anistia Internacional e sonhar, quem sabe um dia, em trabalhar numa grande organização mundial ajudando outras pessoas. Que linda que sou! E olha, não estou pregando que devemos ser descuidados, pouco vaidosos, nada disso. Só penso que, depois desta autoanálise, reforço que devemos prestar menos atenção ao que vem de fora e tentar cultivar o que está de melhor dentro da gente. Buscar um certo aperfeiçoamento a cada dia, não nas marcas de roupas que usamos, mas sim, no que aprendemos e no que deixaremos para as futuras gerações.

Se como eu em algum momento você se sentiu feia hoje, pense nas coisas bonitas que você já fez nesta vida, inclusive para outras pessoas. E se ainda não o fez, faça! Pois este é o melhor tratamento de beleza que a sua alma poderá receber de você.
Beijos!

terça-feira, 22 de março de 2011

A eterna busca

Quando nascemos, entramos a um mundo onde tudo já pertence a alguém. Você quando nasce, pertence aos seus pais, que pertence a uma família e a uma sociedade que, ano pós ano durante o seu desenvolvimento, faz você sentir o compromisso de que um dia certamente alguém te pertencerá. Ou que você pertencerá a alguém. E a nossa vida passa em função desta incrível, incessável e solitária busca que na maioria dos casos, faz a gente se sentir fracassado, pois nos decepcionamos com o que encontramos para nos pertencer.

Nós, principalmente as mulheres, sustentamos um forte desejo de ser de alguém. E se chegamos a ter "um dono", esperamos que nos cuide com a mesma dedicação com a qual realizamos a árdua busca, simplesmente porque ela não é fácil. Digo isso porque assim como eu, todas as mulheres que conheço idealizam o amor, achando que uma vez terminada a busca, a missão está cumprida. Mas acontece que cada um de nós somos um universo e a perspectiva das pessoas mudam conforme os olhos que a enxergam. Então, não importa o quanto e como você dê, porque para cada indivíduo, no seu universo, o recebido nunca estará coerente com o que achar merecido. E outro segredinho é que quase sempre não percebemos o que o outro deseja de nós. E é aí que começam os desentendimentos, porque esperamos nos sentir especiais, amados e se não é assim, nos frustramos, nos tornamos exigentes demais, e a relação vai se deteriorando a ponto de acreditarmos que o encontro de tal busca foi um erro.

Esses desentendimentos podem estar associados ao fato de que somos seres de pouco auto-conhecimento, não em nível de indivíduo, mas em nível de espécie. E como crianças bobas, geramos expectativas absurdas, sonhamos uma realidade incoerente onde quase sempre, apenas uma das partes a vive. E aí, aparece de novo a frustração, por notar que a coisa não é recíproca. Então, o que bate é a sensação de desamparo, e que nos equivocamos de dono, restando apenas a possibilidade de refazer as malas e escapar pra buscar de novo.

Estando preparado ou não, recomeçar é muito difícil. Pois o recomeço por si só é ranso e é inevitável sermos  zombies ressentidos e desacreditados, porque ficamos desesperançosos e que investir no final das contas, é um erro certeiro.
Então gente, descobri que existem três verdades absolutas nesta vida: ninguém é de ninguém - pois nada é para sempre, tudo tem seu ciclo; Se as relaçoes não funcionam, é porque na maioria dos casos um dos donos esqueceu de cuidar da sua propriedade, assim como de demonstrar o quão valioso essa propriedade é para o seu dono; E todo mundo, por pior que seja, quer ser amado. Se não reconhecemos essas três verdades, sinceramente, estamos condenamos a uma eterna e frustrada busca...


domingo, 20 de março de 2011

Ressentimento no dia de São Patrício

Minha mãe já dizia que o homem da sua vida não pode ser encontrado numa noite de bebedeira. Concordo, exceto se ambos forem alcólotras e não tiverem problema algum com isso...
Eu não tenho problema com as bebidas, ao contrário. Elas me deixam mais soltinha, desinibida, simpática mesmo. E como esta semana foi o tal dia de São Patrício aqui em Buenos Aires, e eu jamais havia presenciado a celebração, me mandei pra gandaia.

Me desiludi um pouco com a festa, porque sequer gandaia havia. Nem gente bêbada. Havia sim, alguns alterados, mas nada de muita pegação, micos e afins. Só um bando de gente de 30 pra cima, curtindo um som dos anos 80. Minha amiga, a que teve a brilhante ideia de ir ao pub em que fomos, logo achou um cara bonitinho para se amassar. Inveja dela, porque não tenho tanta facilidade para me envolver com alguém. Sou muito exigente, mesmo alcolizada.

A sorte é que o bonitinho da minha amiga tinha um bonitão de companheiro. E que homem! Alto, olhos azuis (olha que nem gosto de olhos claros), engenheiro... meu número. Vi que a teoria da minha mãe finalmente caía por terra, porque, além de perfeito, o cara estava interessado na pessoa que vos escreve. E conversa vai e conversa vem, tentativas de beijo e nada. Não porque o engenheiro não quisesse. Era insistente até demais pro meu gosto, mas percebi que ainda tenho problemas para beijar um desconhecido, por mais lindo e rico que seja. Investi no álcool a ponto de não importar que a cerveja tivesse uns 35 graus. Mão na minha cintura, palavras de estímulo e eu nada, estava mais copenetrada no We are the champions do Queen que outra coisa.

Certa vez, meu irmão disse que quando estamos embriagados, mostramos o nosso verdadeiro eu, e puta que pariu, o meu verdadeiro eu é sem dúvida uma virgenzinha pudica. E o cara era tão fofo... dizia que eu era linda, que tinha olhos exóticos maravilhosos...me abraçava com tanto carinho que quase me apaixono, de tão carente que ando. E ele estava ali de bandeja para eu degustar, só que havia algo que me inibia.  Sério gente, naquele instante pude experimentar a sensação de um homem broxa, porque era incapaz de tocar meus lábios nos dele. Minha amiga estava em altos amassos, enquanto eu e o bonitão - de mãos dadas feito dois colegiais, olhávamos a pegação dos nossos amigos. Consciente de que não ia rolar nada mesmo, fiz o pior que uma mulhr pode fazer. Me despedi com um beijo no rosto e desejei boa sorte ao infeliz  com um "você é um querido e espero que sua noite termine bem, você merece". Tá certo gente, entendo a frustração do cidadão, mas eu só quis ser gentil ante esse mundo tão cruel! E sabem o que recebi? Sabem? Sabem? "Vai pra casa sua velha amarga, pode deixar que vou terminar a minha noite muiiiito bem, melhor que a sua, com certeza!".

Hunf, depois dizem que nós mulheres somos as ressentidas! Hahahaha

quinta-feira, 3 de março de 2011

A menstruação

Hoje tive um momento filosófico com a minha menstruação. Enquanto olhava o sangue denso se desfazer na água, lembrei de mim alguns anos antes. Desejava profundamente não ter óvulos, evitando assim as cólicas e a desagradável sensação de estar usando fraldas.

Mas hoje foi diferente. Enquanto o vermelho se convertia em translúcido naquela água desolada, senti o pesar do desperdício, como se estivesse perdendo algo precioso. O sarcasmo foi inevitável e com uma ponta de tristeza pensei "quanto tempo me resta para encontrar o espermatozóide herói que fará desses óvulos uma continuidade do meu ser?"

É deprimente, eu sei, mas não esperem muito de mim pessoal, foi pura filosofia de banheiro, mesmo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ano novo, vida nova?

Depende. Acho que as grandes mudanças que tanto esperamos para um novo ano, na verdade é uma invenção que criamos para poder sobreviver a realidade que vivemos. E não está mal criar essas mentirinhas. Até penso que elas nos ajudam a refletir uma série de coisinhas que passam em branco na maior parte do tempo. Por exemplo, quando é que a gente leva a sério que estamos acima do peso? que devemos deixar de fumar? trocar de namorado? ou fazer algo que a gente realmente gosta? Pensamos nessas questões "existenciais", apenas quando um ano está prestes a começar, e o mais triste disso é que elaboramos uma lista enorme de metas que nunca são cumpridas.

No meu caso, adoro empurrar com a barriga as coisas que me incomodam ou renuncio o que realmente quero fazer, porque estou pensando nas outras pessoas. Percebi, que isso foi gerando um desgosto tão impossível dentro de mim, que nem eu mais me suportava; puro resultado de ter sido corrupta comigo mesma, de me prometer coisas e não cumpri-las. Exemplo disso, é a minha grande frutração de não poder viajar e conhecer outros países porque o meu namorado ainda está estudando a graduação dele. Coitado, ele realmente não pode me acompanhar em grandes viagens, e por não me animar a viajar sozinha, fico ressentida e frustrada. Até que percebi que o problema estava em mim, na incapacidade de fazer realizar situações que me faziam bem, neste caso, uma viagem interessante. Cheia de culpa e remorso, elaborei um plano de viagem que incluía deserto, montanhas e lugares exóticos com esportes radicais. Chamei um amigo para me acompanhar, e nos mandamos para o norte argentino, seguindo pela Bolívia e Chile. Jamais, em sã consciência, teria feito tamanha maluquice. Ir sozinha, pior, com um amigo ao deserto de Uyuni e Atacama foi o meu grande grito de rebeldia. Naquele momento não reconheci, mas hoje, vejo que isso foi um prêmio mais que merecido. Tive que enfrentar o ciúmes, a reprovação e os meus próprios fantasmas, mas confesso que tudo saiu maravilhoso e estou orgulhosa de mim! Eis o motivo da desatualização deste singelo blog que você lê neste momento.

Com esta experiência, aprendi que a decepção mais dolorosa acontece quando vem de nós mesmos. Se você está a fim de fazer algo por você, não crie barreiras, vá e faça. Vamos cair na filosofia de bar de que a vida é curta, mas é mesmo meu amigo. Por isso, invista nos seus desejos para fazer do novo ano uma vida novinha em folha. Você se redescobrirá numa dessas. Vai por mim!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Nunca entenderei o Natal

Tá aí, se tem uma festa que não celebro é o tal do Natal. De criança, sim, toda aquela alienaçãozinha do bom velhinho que botaria meu presente numa meia caso tivesse sido boazinha. Como eu cresci e aos poucos fui me tornando um ser inteligente e racional, percebi que não concordo com a maior parte do festejo. E olha que se fosse por vontade minha, seria a primeira a armar a árvore natalina, primeiro, porque deve ser divertidíssimo estourar o cartão de crédito e  os pés na busca do presente, para depois se estressar e estressar todo mundo para que a ceia saia perfeita. E isso, tampouco entendo. Não é só juntar a família para comer? A tal da ceia, hum...nunca consegue ser perfeita. Sempre vem aquele parente "bacana", que só vai na sua casa para comer o tal chester (num calor de 35 graus). A minha mãe, ela é muito gente boa. Vive se preocupando em servir e a agradar a todos, inclusive os sapos que os parentes desagradáveis trazem. Mas ela tem um problema irritante que é implicar com a roupa do meu pai, que tenta, coitado, disfarçar a idade que tem. E aí começa aquele bafafá para o meu pai tirar o boné, que esconde a 7 chaves a tal calvice. E é ridículo ter que escutar as discussões que sucedem. Pô, o cara é feliz assim, e o natal não é tempo de felicidade?

Tudo bem, agora estou praticamente casada, longe do Brasil e com a família do meu namorado. A história poderia ser diferente, mas não é. O histerismo coletivo continua: minha sogra que reclama que faz tudo sozinha, a cunhada folgada que só quer ser servida e grita com todo mundo se as coisas nõ saem do jeito dela, a outra cunhada que te faz sentir um lixo porque recebeu de você um presente que ela não considera de luxo.
Por isso, cada vez que escuto essas frases com votos de felicidade - transformando esses demônios em recém anjos após a meia-noite, sinto uma tremenda vontade de vomitar, porque este não é o espírito que devíamos ter. Sou agnóstica, portanto, não deveria me importar com essas coisas. Mas tenho uma espiritualidade - que parte de um vínculo moral, que me impede de desfrutar de tudo isso. Acho imoral ser parte dessa estratégia consumista que me obriga a sentir a necessidade de comprar e receber um presente; de ter que gastar dinheiro para comprar uma roupa para agradar, inclusive, às pessoas que não gosto. Trata-se de um ritual macabro, impiedoso que por mais desconfortável que seja, faz você acreditar que isso é legal. Mas não amiga, isso não é legal, pois te asseguro que me sinto vergonha alheia ao ver esse milhão de baratas tontas abarrotadas com suas sacolas de marcas passando ao lado de uma mãe com três filhos sentados no chão, pedindo esmola e comendo o que acharam no lixo do Mc Donald´s.
Por isso, com o Luis decidimos que, a partir de hoje, todos os natais passaremos na rua, com moradores de rua. Nossa ambição não é levar paz e felicidade, porque não acredito que quem vive miseravelmente num mundo tão superficial, consiga não se deixar atingir pelas superficialidades. Queremos levar às suas vidas um pouco de amor e companhia, não porque somos bonzinhos, mas porque para nós, este é o verdadeiro significado do natal.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O que você quer ser quando crescer?

Embora sentisse certo prazer em torturar meus coleguinhas com severos castigos por errar um cálculo qualquer, nunca tive vontade de ser professora. Dizia que dava muito trabalho. A verdade é desde pequena, nunca tive muita paciência para explicar. Prefiro aprender que ensinar, sabe? Mas isso descobri muitos anos depois...
- Michele, o que você quer ser quando crescer?
- Feirante. 
- Mas por que feirante, filha?
Não sabia. Achava a profissão divertida, pois nela você conhecia gente a todo momento. Na feira se fazia amigos, se comia deliciosos pasteis japonês, cocadas, frutas... e era todo um evento social. Só quem é de São Paulo, sabe o que uma feira representa. Passaram-se alguns anos, e lá veio a pergunta novamente:
- Mi, o que você vai ser quando crescer?
- Coletor de lixo.
- Mas filha, por quê?
Porque achava o máximo recolher o lixo alheio! Ficava olhando aqueles homens rindo, correndo atrás de um caminhão, livres. Mas nem sempre quis ser coletora de lixo. Fui mudando de gosto, todos sem qualquer ambição, mas essa não era a minha preocupação. Também quis ser pastora de igreja evangélica, atendente no Mc Donald´s, até coveira quis ser.

Cresci e ainda tenho sonhos insanos para a minha vida. Da mesma forma que continuo tirando o sono da minha mae, que me acha um caso perdido. Mas é que gosto da vida assim, fresca, colorida e ruidosa como as feiras; boêmia, livre e sempre com coisas a reciclar como o lixo. Posso assegurar que nesses 31 anos, minhas escolhas não poderiam ter sido melhores. Palavra!


Amo essa música.
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