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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Meu problema está no começo, no meio e no fim das coisas

Todas as minhas primeiras vezes são traumáticas, sim senhora: é o primeiro dia de aula, a primeira apresentação em público, o primeiro encontro amoroso, o primeiro dia de trabalho. Poderia considerar normal o fato de me sentir incômoda com uma situação diferente, talvez nunca vivida antes. Mas analisando o meu caso, vejo que as coisas vão sempre para o outro extremo. Tá certo, sou uma ímã de tragédias cômicas mas... isso me incomoda pra caramba, porque me faz ser mais ansiosa, determinando que eu faça mais cagadas e as pessoas acabam tendo uma impressão equivocada ao meu respeito, gerando um ciclo, uma reação em cadeia irreparável que me condena a ser uma... loser. "Ah, você não é aquela que derrubou chá no material do professor de Políticas Latinoamericanas?" "Pois é, sou eu, mas eu só tava tentando ajud...". "Nossa, que desatre você fez aquele dia menina". Foi-se a oportunidade de ser lembrada como a garota inteligente do curso que articulou talentosamente uma ideia difícil de expor...

Geralmente, tento passar despercebida - já considerando o meu talento nato de fazer merdas sucessivas e também porque sou tímida. Lógico que eu gostaria de chamar a atenção por algum tipo de atributo positivo: a linda, inteligente e gostosa; a loirinha linda; a do corpão; a das pernas bonitas; a de humor inteligente; a simpática... - no mínimo isso, porra!



- Michele, você era aquela magrinha e dentucinha do ballet?



- Você era a que namorava um bem feinho na faculdade?


- Você é a Michele que repetiu a terceira?



- Não, essa é a Michele gordinha bem morena, do terceiro B.




- Então... que Michele é você mesmo?



Chega! Agora, todas as semanas frequento a sala de um analista para ver se supero o meu "complexo de loser". Nunca quis admiti-lo, mas sim, sou uma loser. E garanto que nunca fui acomodada, tá? Estou trabalhando o meu eu interior para resgatar a minha imagem; vocês podem até me crer superficial (talvez seja), mas cansei de passar 30 anos no banco de reserva. Não quero mais ser a boazinha que só se fode - a que vê a melhor amiga (mais feia e burra que eu) pegar o garoto que foi o amor da minha vida adolescente, a que passa as noites em claro fazendo um trabalho cujo outras pessoas levam o mérito, a que sempre tenta recuperar a relação que está aos frangalhos. Não! Agora estou na fase da superação, enquanto tento secar e limpar as folhas manchadas com o chá verde do professor de Políticas Latinoamericanas. Porque além de não tão linda, não tão brilhante, não quero me foder na pósgraduação e afetar consequentemente, a minha vida acadêmica.


PS: Não acreditem em tudo o que está escrito. Em algumas coisas, talvez:



1: Psicólogos me perdoem, mas para mim os analistas são mentirosos e previsíveis.
2: Nunca me preocupei com a minha imagem, acho que gosto de ser bizarra.
3: É verdade, minha melhor amiga pegou o menino que eu gostava. Mas como minha mente é diabólica, me vinguei dela e principalmente dele.
4: Nunca tento recuperar minhas relações; ou porque não valem a pena ou porque não tenho vontade.
5: Faço trabalhos acadêmicos sozinha, detesto dividir méritos.
6: Derrubei chá verde nas folhas do professor, mas culpei a colega do lado.
7: Este texto é para provar que a imagem frágil te faz passar por estúpida.
8: Sim, sou uma psicopata, perversa e irrecuperável. Mas não tenham medo, sou inofensiva.
9: Não permitam ser subestimados, pisados, esculachados por ninguém.
10: Amo vocês!
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