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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Síndrome do fracasso, um castigo pelos meus pecados?

É patente que padeço do complexo de inferioridade. Mas ressalto que nem sempre fui assim. Talvez porque nunca havia convivido com gente rica, muito mais inteligente e bem sucedida do que eu. Sendo assim, no meu micro mundinho eu era a rainha da cocada preta e aqui eu sou a rainha da sucata.

Vivendo em Buenos Aires, fatalmente meu círculo social mudou. Se antes morava nas repúblicas da vida sem me importar, hoje sou uma residente de um bairro classe média alta portenho revoltada. Penso que estou assim porque estou rodeada de gente bem sucedida, que contrasta com a minha vidinha fracassada.

Meus amigos eram estudantes quebrados, que como, eu tinham de luxo uma viagenzinha para o litoral no fim do ano. E convivendo com seres mortais, não exigia demasiado de mim. Hoje, meus conhecidos são pessoas que viajam para Cuba, Nova York, Londres, como se estivessem indo ao Brás aproveitar uma promoção. Nestas condições, fico imaginando as coisas que possivelmente estou perdendo e que certamente não poderei recuperar, porque sou pobre, ex filha do rigor, jornalista e bióloga (hahaha).

Hoje sou uma pessoa invejosa, gente. Não dá para evitar, tem vida própria. Até tento me comparar com o mendigo da saída do metrô, mas não funciona. Tomei gosto pelo glamour que o dinheiro pode proporcionar e se o dinheiro não traz felicidade, com American Express você pode parcelá-la.

Agora, imaginem essa infeliz no metrô todo o santo dia. Enquanto sua cara está enfiada no sovaco peludo do grandão ao lado, ela nas pessoas que tem a sua idade e que já possuem carros e bons trabalhos, que lhes permite ir a Cuba, Nova York, Londres ou Dubai. Chegam aos seus respectivos trabalhos perfumados, íntegros, atraindo gente interessante como eles. Minha condição é oposta. Viajo numa caixa apertada, fedorenta, sempre com uma criança esguelando ao lado e com um velho que peida a sopa paraguaia da noite anterior. Chego ao trabalho praguejando o meu destino e se alguém me diz bom dia, penso bom dia o caralho, filho da puta! Como se não bastasse, encontro meus colegas reclamando os 100 reais que faltam no salário da gente. Vou tomar um ar na sacada do prédio e penso qual eficiência tem o 10º andar para se jogar e não correr o risco de ficar tetraplégica.

"Você está permitindo que o sistema te enlouqueça. Você não pode se render à ideologia do capitalismo neo liberalista, racista, segregacionista, pervertida, indolente e cruel". Não, não quero ser mais uma que esbanja o luxo e vomita a sobérbia sobre a base da pirâmide social. Só quero ter uma recompensinha por tantos esforços, puxa! Deusinho do céu, eu acho que eu mereço. Sempre fui boa filha, estudiosa, obediente. Não fui namoradeira, dei meu primeiro beijo aos 21 e só beijei 3 deusinho, 3 bocas! Com isso, eu mereço ser canonizada. Dou esmola, não cobiço o homem do próximo, faço o bem sem olhar a quem...Já sei, sou ateia, mas puxa, alivia aê pô. Quem sabe mudo de ideia e viro evangélica?

Epa! Será que é isso? Será que tenho que me inscrever ao universo do reino de deus para ser merecedora do júbilo e do gozo eterno? (sem duplo sentido). Então tá deusinho. Se eu rezar um terço ou predicar a palavra, o senhor garante que terei um aumento e assim finalmente poderei comprar um audi?
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