Se tem um manicômio a céu aberto, este lugar é Buenos Aires. E a maior concentração desses malucos, certamente é o metrô. Inevitavelmente, essa conclusão traz à tona uma conversa que tive com o meu pai certa vez. O velho dizia que eu pagaria por ser tão maldosa nos meus pensamentos. Hoje, acredito que de certa forma ele tem razão. Sou obrigada a tomar o metrô todo o santo dia, e nele vivo o que seria uma prévia do inferno eterno.
Mas, será que as pessoas ficam malucas porque usam o metrô ou o metrô é usado apenas por pessoas malucas?
Tá certo que o sistema subterrâneo portenho tem infinitos motivos para te fazer enlouquecer: não tem ar condicionado, os vagões são estreitos, existe um cheiro de queijo podre com merda fresca inexplicável, nunca são pontuais e até jato de lama do teto tem nos dias de chuva, inclusive, já levei um. Há!.
Era um dia igual a todos os outros, quando no meio do túnel em que faço a baldiação, escuto um cara gritar "puta que pariu, que cheiro de bosta é essa?". Claro que ele falava em espanhol, e é claro que ele se referia ao cheiro misterioso que comentei mais acima. Ele era um sujeito magro e engravatado. Seu companheiro, um gordinho também engravatado, gesticulava freneticamente a mão na frente das narinas. Quem está lendo isto aqui deve estar se perguntando o que tem de loucura nisso. Acontece caro leitor, que os portenhos são particularmente "refinados". Não gritam (só quando protestam), não falam bosta (ou seus derivados) em um túnel que faz eco, menos ainda se estão engravatados. Concordo que nessas condições não seria antinatural afirmar aos berros o que todo mundo já sabe: que o túnel fede pra caralho. Mas acontece que para essas coisas, o argentino prefere ignorar o que incomoda, exceto, aqueles dois cavalheiros. A declaração me pareceu encorajadora, atrevida e engraçada. Ri, aliás, tentei rir. Não queria que o odor infernal entrasse por minha boca! Corri o mais rápido que pude e me enfiei no metrô. Sentei, abri o meu livro e percebi que do lado direito estava o engravatado magro, do lado esquerdo uma senhora com a cara da Lolita Rodrigues e após esta, o gordo engravatado. Naquele silêncio profundo, que só o metrô consegue ter, o magro repentinamente começou a falar de caganeira. Ok, problemas escatológicos, pensei. Todo mundo tem, e talvez, estes senhores sejam apenas desbocados, indiscretos e só. Mas de repente, o gordo solta um peido tão sonoro, que a Lolita Rodrigues quase enfarta de susto. Ao invés de rir eu fiquei com medo, pois tratando-se de louco, não arrisco.
Enquanto pensava se saía do meu lugar ou não, escuto o magro dizer ao gordo "ei, isso não se faz amigo! Olha as senhoritas...", "não foi de propósito, é o remédio que me deram lá na clínica", contestou o gordo. Não sei por que, mas a palavra clínica não me agradou. "O que você acha de irmos ao Jockey Club neste fim de semana?", indagou o magro, "Só se você prometer que não vai correr atrás dos cavalos e nem cuspir nas pessoas. Na última vez que fomos, nos internaram, lembra?". Era demais. Só podiam ser de alguma companhia de teatro (é comum aqui que os atores de pouca sorte se apresentem no metrô para pedir gorjetas). Foi então que decidi relaxar e continuar com o livro que tentava espantar o odor que pairava no ar. Mas então, percebi que a Lolita Rodrigues estava tendo convulsões de tanto reprimir o riso. Entrei no embalo e reprimi o meu também. Fiquei tão vermelha, que fatalmente despertei a atenção do magro. O infeliz não deixou por menos, começou a exaltar as minhas qualidades físicas, perguntou o meu telefone e decidiu encher o meu saco durante toda a viagem. E pior, todo mundo estava olhando para mim. Na tentativa de pedir clemência, olhei para a cara do gordo, que por motivo desconhecido considerei ser mais simpático que o outro. E para o meu mais sacro espanto, percebi que o cara tinha ticks contínuos e a mão tinha uma posição estranha. Foi então que percebi o porquê de todo mundo estar sério; eles realmente eram deficientes mentais, para não dizer loucos.
Normalmente, levantaria, sairia do metrô e esperaria o próximo. Afinal, não é a primira vez que sou vítima de gente maluca. Certa vez, um brasileiro xenofóbico de sua própria gente decidiu me cuspir e me chamar de puta na frente de todo mundo. Era loiro, não estava mal vestido, o que fez todo mundo pensar que ele não era um drogrado esquizofrênico, mas sim, que havia sido vítima da loirinha magricela que olhava tudo com a maior cara de espanto do mundo. E ele berrava! E disse todas as infâmias que lhe ocorriam na cabeça. E o mais hilário era que ele me identificou como brasileira, através do livro que eu lia: O Grande Mentecápito (ironia do destino, não?) Mas, voltemos ao gordo-e-magro.
Enquanto todo mundo fazia cara de enterro, eu e a Lolita Rodrigues não conseguíamos disfarçar o nosso escárnio. Tentávamos não encontrar os nossos olhares, mas era impossível. Os loucos perceberam que ríamos deles e, notando o protagonismo, iniciaram uma sessão de peidos e arrotos. O silêncio no metrô (por parte dos outros passageiros) ainda era mortal e obviamente, todo mundo ali queria atirar a pobre Lolita e eu nos trilhos. Ninguém movia um lábio, não tinham o riso reprimido, só a cara de bronca. Ao contrário de mim e da simpática senhora, que no embalo dos sons nojentos, ríamos na maior felicidade, cúmplices daquela loucura.
É como diz a minha mãe: Se você não pode com um louco, junte-se a ele.
